Marianne
O GATO
Vinícius de Moraes

Com um lindo salto
Lento e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão

E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado

Se num novelo
Fica enroscado
Ouriça o pêlo
Mal humorado
Um preguiçoso
É o que ele é
E gosta muito
De cafuné

E quando à noite
Vem a fadiga
Toma seu banho
Passando a língua pela barriga.

(Nick)
Marianne
"Um amor romântico, tanto na pornografia quanto na vida real, é a mítica celebração da negação feminina. Para uma mulher, o amor é definido como sua boa vontade para se submeter a sua própria aniquilação. A prova de amor é que ela está disposta a ser destruída por aquele que ela ama, pelo seu bem. Para as mulheres, o amor é sempre auto-sacrifício, sacrifício de sua identidade, desejo e integridade de seu corpo; para que satisfaça e se redima diante da masculinidade de seu amado". (Andrea Dworkin)

Até ao ponto de altruísmo concordo com Dworkin, mas acredito que, seja o lado feminino ou o masculino, sempre aquele que for mais empático, carente, será o que sacrificará mais de si, como a sua identidade e tal. "Sempre tem um lado que se dedica mais" - como li uma vez. Acredito que tenha mais a ver com fases da vida e experiência adquirida, pois se submeter ao outro(a) é uma escolha pessoal, independente do amor ou de qualquer outro instinto. Pois se o amor é a aniquilação para a mulher, como seria o relacionamento homossexual entre duas mulheres? Curioso isso não!?


Marianne
Muitas coisas aconteceram essa semana, cada pedaçinho desses acontecimentos eu peguei como uma espécie de “cacos” e acabei formando um mosaico – um mosaico de inconformidade.


Primeira coisa, o tipo de coisa que mais odeio: e-mails em corrente que tenta me comover mostrando imagens de vítimas em várias situações no mundo, como se eu não soubesse da situação mundial, como se falasse que a culpa é minha porque tenho uma vida considerada “boa”, como se tentasse me convencer que a minha vida será perfeita porque descobri que existem pessoas em situações piores que a minha. e que sou uma má agradecida O que eu deveria fazer? Cortar as minhas pernas e meus braços e me igualar para demonstrar o quão comovida fiquei após ver um e-mail totalmente escrito com um português “porco”, sem nexo algum, somente com algumas imagens pegas no Google? Não sei, a pessoa deve ficar coçando o saco e pra tentar fingir que é carismático cria essas idiotices. Em vez de ficar enchendo a caixa de e-mail com coisas sem noção, porque não vira voluntário em alguma instituição e coloca a mão na massa (em vez do saco) e vai ajudar alguma população que precisa? Penso que quando a pessoa exibe imagens de outras pessoas em um estado péssimo, não está ajudando em nada a humanidade, muito pelo contrário, está inferiorizando essas pessoas, usando elas como “exibicionismo”, ou um modo de chamar a atenção, não para o fato, mas para si mesmo, para que pense “oh, como ele é humano!”. Quem realmente se preocupa vai lá e ajuda, não fica exibindo isso como propaganda. Ficar reclamando que há muitas vidas que estão em situações críticas é fácil, mas se mover e agir, ninguém quer, enfim, falar é fácil né? Tenho certeza que 95% dessas pessoas que criam essas correntes não teriam a coragem de colocar a mão em uma ferida para fazer um simples curativo nessas pessoas. Odeio hipocrisia, para >aquele< que me mandou esse e-mail, espero que aprenda a agir em vez de ficar se auto-rotulando “o” preocupado com a civilização. Esse povinho calouro na área de saúde se acham os salvadores do mundo, mas os que mais falam menos fazem. Claro, não são todos, mas sempre tem os ignorantes poluindo as áreas de estudo por ai.


Segunda coisa que me veio em mente, foi quando li um post de um blog que acompanho falando sobre pedofilia, e castração química, o que achei interessante foi o destaque sobre o fato de que ninguém comenta que mulher também pratica o ato e a ação pedófila ou abuso sexual, ou seja, é sempre o homem o criminoso nessas áreas. Mas então volto com aquela afirmação – a mídia determina tudo. Veja bem, tudo o que a mídia exibe, todos se revoltam, a mídia divulga somente que o homem é o culpado nessas áreas, logo, a sociedade afirma e pega como verdade absoluta que o homem é culpado e ponto. Ninguém questiona sobre aquilo que lê, que ouve, que vê... Senso comum ao extremo. A mídia elege os candidatos, a mídia determina o culpado e a vítima, logo – se já não estiver assim – estarão substituindo o signo “justiça” pelo signo “mídia”. Em nome da mídia eu declaro isso e isso! Enfim, não querendo ser fatalista, a mídia tem um lado bom na sociedade, mas ainda não me inspirei pra escrever sobre isso.

Sabe quando você está terminando o seu dia e concluí "TÁ TUDO ERRADO"? Pois bem, estou nesse dia.


Marianne
Fui pesquisar sobre Jorge Luis Borges, que na matéria da Revista Veja sobre os gatos foi citado e encontrei alguns poemas de sua autoria que me chamou a atenção.


ARTE POÉTICA

[Tradução de Rolando Roque da Silva]

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.


UM CEGO

Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.



A UM GATO

Não são mais silenciosos os espelhos
nem mais furtiva a alba aventureira;
és, debaixo da lua, essa pantera
que nos é dado ver de longe.
Por obra indecifrável de um decreto
divino, buscamos-te com vaidade;
mais remoto que o Ganges e o poente,
é tua a solidão, teu o segredo.
O teu lombo condescende à morosa
carícia da minha mão receosa.
Estás em outro tempo. És o dono
de um espaço fechado como um sonho.
Marianne
Nana e Eu.

...porque o amor e a amizade não se limita apenas na humanidade.

~ ♥ ~


PROFESSOR SABICHANO

Freud disse que os donos de gatos os escolhem na tentativa inconsciente de adquirir suas características. Aqui, dez coisas que podemos aprender no convívio com eles, apontadas pela veterinária e gatófila Luciana Deschamps:

1. Relaxar "Gatos adoram uma preguiça e sabem aproveitar cada minuto em que ficam sem fazer nada"

2. Aproveitar o momento "Gatos fazem coisas divertidas mesmo quando não têm plateia"

3. Explorar "Eles querem saber tudo, ver tudo, mexer em tudo, e assim descobrem o que preferem"

4. Ter autossuficiência "Para o gato, ser independente não significa amar menos o dono, mas apenas não ser radicalmente dependente dele"

5. Mover-se "Não há andar mais elegante no reino animal que o jeito silencioso e suave dos felinos"

6. Alongar-se "Saber se esticar é fundamental para quem quer desbravar o espaço ao seu redor"

7. Comer com prazer "Gatos aproveitam ao máximo o alimento. Cheiram, brincam e só depois comem. É o gosto de experimentar coisas novas"

8. Ocupar espaços "Por que se deitar num cantinho, se você pode ocupar a cama inteira?"

9. Observar "Humanos acham que eles não prestam atenção, mas quase tudo o que os gatos aprendem é observando os donos"

10. Ter vontade própria "O gato não se submete. Deve pensar: ‘Pobre bípede, acha que vou fazer isso só porque ele quer’. E não faz".


"Os gatos fascinam os humanos, e não é apenas pela aura de mistério (ou, na definição de Jorge Luis Borges: "Por obra indecifrável de um decreto / divino, te buscamos inutilmente / mais remoto que o Ganges e o poente / tua é a solidão, teu é o segredo"). Com olhos grandes e puxados, cara pequena, focinho achatado e corpo macio, eles se encaixam num conjunto de características chamado de "esquema bebê" pelo biólogo austríaco e prêmio Nobel Konrad Lorenz, que nos anos 40 traçou e explicou pela primeira vez a semelhança. O "fator fofura", como é chamado, é formado por um conjunto de feições que lembram as de um bebê e que, por ditames autoexplicativos da sobrevivência da espécie, apareça onde aparecer, sempre desperta nos humanos imediata sensação de afeto e impulsos protetores. "O cérebro humano responde de maneira positiva a essas feições. Estejam elas num bebê, num gato ou num filhote de panda, todos vão estimular proteção e cuidados", explica a bióloga Melanie Glocker, especialista em neurociência social do Instituto de Biologia Comportamental da Universidade de Münster, na Alemanha. Por desencadear reações irresistíveis, o "fator fofura" desponta em toda parte (inclusive naquelas que envolvem o uso de cartões de crédito) e vai além de um simples conjunto de feições. "Qualquer objeto ou mesmo uma palavra fofinha ativa o sistema de recompensa do cérebro que libera dopamina e imediatamente nos faz sentir bem. É uma felicidade instantânea", diz a bióloga alemã."

Fonte: Veja

Marianne
O instinto de amar um objeto demanda a destreza em obtê-lo, e se uma pessoa pensar que não consegue controlar o objeto e se sentir ameaçado por ele, ela age contra ele.

(Sigmund Freud)
Pensadores 1 comentários | | edit post
Marianne

Na aula de Ética II, no dia 25 desse mês, foi apresentado pelo professor um documentário sobre Ética e Moral, vou ficar devendo o nome do responsável pelo documentário, mas logo coloco aqui a fonte e tudo mais.

De inicio notamos nos calouros um grande hábito de fundir ou confundir Ética e Moral, mas a apresentação desse professor sobre o tema é de uma simplicidade e curiosidade, que darei ênfase á alguns pontos exibidos, só mesmo de passagem.

Temos a Moral como um dever; poderíamos pegar como palavra-chave: “obrigações”.

Em Ética já questionamos a vida que queremos viver ou questionar “como devo agir?” – A Moral manda e a Ética comanda.

Pode-se também analisar a Ética como um desejo e a Moral como uma obrigação.

Outro ponto de análise desse professor foi sobre a Vergonha e a Culpa, dois pontos em que desenvolve a Moral.

A Vergonha já é manifestada a partir dos dois anos de idade na criança, ao momento em que ela já se reconhece no espelho e todo esse processo. Ele vai separar então dois tipos de Vergonha:

- Vergonha de ser olhado e ser percebido;
- Vergonha no auto-juízo negativo – julgar-se negativamente.

Segundo a pesquisa uma pessoa vergonhosa é mais moralista que uma pessoa sem-vergonha (não na visão do senso comum).

O medo é decair diante da outra pessoa e então o individuo torna-se juiz de si mesmo (culpa), logo se torna uma pessoa Ética e Moralista, pois ao lado em que busca seguir as normas impostas no convívio com os indivíduos da sociedade, trabalha dentro de si mesmo as suas virtudes que é uma característica da personalidade, e assim tornando-se ético, busca um bom modo de ser em convívio consigo mesmo e com o outro.

Pessoalmente falando, quando penso em Ética me questiono “que tipo de pessoa devo ser para o outro, que tipo de pessoa “boa” e justa; como devo me comportar.” Ética para eu é um exercício mais individual, um trabalhar consigo mesmo, diferente da Moral em que seguimos determinados “mandamentos” impostos para manter um convívio social melhor. Há também uma longa reflexão á não-Moral, mas isso é assunto para um tempo mais longo e não apenas uma “lista de tópicos” como essa.
Marianne

Em mim também

VI

Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Tereis notado que outras cousas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.

Mas amastes, sem dúvida ... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço cousas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.

Quem ama inventa as penas em que vive;
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.

Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos somente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando.



De outras sei

IX

De outras sei que se mostram menos frias,
Amando menos do que amar pareces.
Usam todas de lágrimas e preces:
Tu de acerbas risadas e ironias.

De modo tal minha atenção desvias,
Com tal perícia meu engano teces,
Que, se gelado o coração tivesses,
Certo, querida, mais ardor terias.

Olho-te: cega ao meu olhar te fazes ...
Falo-te — e com que fogo a voz levanto! —
Em vão... Finges-te surda às minhas frases...

Surda: e nem ouves meu amargo pranto!
Cega: e nem vês a nova dor que trazes
À dor antiga que doía tanto!



Por tanto tempo

XXIX

Por tanto tempo, desvairado e aflito,
Fitei naquela noite o firmamento,
Que inda hoje mesmo, quando acaso o fito,
Tudo aquilo me vem ao pensamento.

Sal, no peito o derradeiro grito
Calcando a custo, sem chorar, violento...
E o céu fulgia plácido e infinito,
E havia um choro no rumor do vento...

Piedoso céu, que a minha dor sentiste!
A áurea esfera da lua o ocaso entrava.
Rompendo as leves nuvens transparentes;

E sobre mim, silenciosa e triste,
A via-láctea se desenrolava
Como um jorro de lágrimas ardentes.

Marianne


Fingir amar a vida mais do que demonstra...

Pisando sobre a linha do limite onde prólogos nunca mostram mais do que queremos saber; mergulhamos fundo na loucura intelectual, aprendendo tudo sobre ética e moral, para interpretar mais uma (falsa) postura social...
Criamos nossa nobreza e nossa etiqueta engana bobos, somos exemplos, somos amados, somos odiados, somos temidos, somos... Simplesmente somos. - Somos traídos.

Buscamos uma visão melhor na ópera, buscamos a interpretação e o choro pessoal na arte de um atuante. Identificações, perdas de identidades, cópias, espelhos; estamos sendo colocados em uma forma que nos molda exatamente como devemos ser dentro da nossa comunidade.
Onde está a autonomia? Quando, como e onde saberemos que quem fala por nós somos nós mesmos?
A vida é um drama.
A vida é uma comédia.
A vida é uma comédia dramática.
Somos mestiços de personalidade, somos infectados pela cultura que nascemos... Influenciados, depósitos de deveres, de afazeres, somos escravos de nós mesmos.
Destruíram o banquete e construíram viciados em utilidades; humanidade que se sente bem quando se sente útil, a praga e a paranóia de servidão se tornaram tão grande, que até o dominador deseja ser dominado.
Marianne
O pior que perder seu óculos é precisar dele para encontrá-lo.


Marianne
"Aquilo que não consigo construir, não consigo entender"
Richard Feynman

(Frase criptografada, inserida no genoma sintético da bactéria).
Jornal - O Estado de S. Paulo - 21 de maio de 2010


PS: Queria viver mais uns 300 anos para ver a "evolução".
Marianne
Sempre costumo deixar esse blog como uma fonte de armazenamento das coisas que gosto, seja leituras e trabalhos pessoais ou letras de músicas e reflexões de outros blogs. Essa reflexão eu fiz após a leitura do livro de Santo Anselmo, estava relendo aqui e me lembrei da sensação que senti quando li no semeste passado essa obra. Segue o escrito:


SANTO ANSELMO DE CANTUÁRIA

MONOLÓGIO E PROSLÓGIO


Santo Anselmo, ao escrever o Monológio, direcionado ao arcebispo Lanfranco de Canterbury, tinha como objetivo transmitir através da sua reflexão por vias sensíveis e racionais, uma concepção lógica sobre a existência de Deus.

Sua obra é merecedora de uma profunda análise que nos leva a uma contemplação ao exercício filosófico feito por Anselmo, enfrentando questões sobre assuntos complexos de se chegar á um raciocínio convencional, como a fé, o nada, o tudo, a própria razão e a existência de uma natureza superior a tudo o que existe, assim como a própria criação dessa natureza.

A pessoa que, desejando para si todas as coisas que julga ser boas para si, em determinado momento irá buscar a fonte que produz tudo o que é bom, nessa busca será capaz de descobrir que as coisas que eram ignoradas de forma irracional, poderão ser compreendidas pela razão, é assim que, a partir desse pensamento Santo Anselmo inicia seus escritos.

Todas as coisas possuem em si algo bom, embora em quantidade maior ou menor, essa coisa boa é igual na fonte que a criou. Quando comparamos as coisas entre si, descobrimos que dois seres podem ter a mesma coisa boa em si, mas o mau uso dessa coisa boa no ser é que a torna mal, como Anselmo cita um exemplo, usando a força e a velocidade de um cavalo como uma virtude nele, e a força e velocidade como algo ruim em um ladrão. Devido a isso fica claro que, as coisas boas não são boas por si mesmas, mas por uma natureza superior a tudo o que existe e que é boa por si mesma.

A dialética de Anselmo sobre a existência das coisas fica da seguinte maneira, tudo o que existe ou provém de algo ou deriva do nada. Mas o nada não pode gerar coisa alguma a não ser o próprio nada, somente algo pode gerar algo, mas então tudo o que existe só pode existir se for gerado por algo, mas como algo pode surgir por si mesmo sem sair do nada?

Anselmo então elabora diversas hipóteses sobre o surgimento de tudo, sendo elas: as coisas surgirem de um início, por si mesmas, ou mutuamente. Mas as coisas não existem de forma mútua, pois um ser não pode gerar outro ser e de maneira inversa a isso, também as coisas não surgem cada uma por si mesma, pois se surgem, elas saem de uma fonte que tem a capacidade de surgir por si mesma onde todas as demais coisas surgem por si mesmas. Se todas as coisas surgem dessa causa, elas são menores que essa causa, pois tudo o que origina-se de outra coisa é menos que a causa que a produz.

“Conclui-se, assim, que deve haver um ser perfeitamente bom e grande; enfim, superior a todas as coisas, quer se denomine ele essência, substancia ou natureza.” (p. 17)

Enquanto todas as coisas procedem dessa natureza, essa natureza procede de si mesma e por isso torna-se superior e única a tudo o que há.

Para uma compreensão melhor, Anselmo usa de uma analogia da existência dessa natureza como a existência da luz, da relação que há em lux, lucere, lucens com a relação em essentia et esse et ens. Pois a luz ilumina, iluminando por si e de si, dessa maneira pode-se entender essa natureza suprema.

O que se pode pensar então dessa substância? Ela é existente em toda parte? Ela se encontra em todas as coisas e por todas as coisas, e todas as coisas existem dela, por ela e nela. Seguindo o pensamento, ela não tem um inicio e nem um fim, pois ela não se limita em um principio e nem em um fim e nada existiu antes dela e nada existirá depois dela, pois o nada não a precedeu e nem será posterior a ela de maneira alguma.

Mas a diante, Anselmo trata em referir-se a fé nessa natureza suprema, que assim como a fé opera pelo amor revela-se viva, mas a fé inativa, revela-se morta, ou seja, a fé viva consiste em crer naquilo em que se deve crer; e que, ao contrário, a fé morta é crer somente aquilo que se deve crer.

Essa natureza suprema é, portanto Deus, que não é somente Deus, mas o único deus, inefavelmente trino e uno.

No Proslógio, Anselmo trata de definir Deus da seguinte maneira: Deus é "do qual nada maior pode ser pensado", em outras palavras, ele é um ser tão grande, que não se pode sequer conceber um ser que seria maior do que Deus. O que é entendido existe no entendimento, assim como o plano de uma pintura que ele ainda tem que executar já existe no entendimento do pintor. Então, que além do qual nada maior pode ser pensado existe no entendimento. Mas se ele existe no entendimento, deve também existir na realidade. Portanto, se nada mais do que isso pode ser pensado que só existia na compreensão, seria possível pensar em algo maior do que ele (ou seja, que mesmo sendo existentes na realidade também).

Conclui-se que Ele é o que é, e será para sempre, seja no plano sensível, no plano inteligível, no plano material, incompreensível ou inatingível, no pensamento ou na realidade, ele é. Ele é inteiro em toda parte e a eternidade Dele é inteira e imperecível.


BIBLIOGRAFIA:


ANSELMO, de Cantuária. Monológio; Proslógio. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
Marianne


"Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas - são animais mansos - seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão...". Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado na sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.

O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.

Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa.

Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo.

A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa...”.

(ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. - São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008. - Página 11-12)
Marianne
[Estou me divertindo com os sarcasmos "desse livro", muito bom!]

Sobre direitos e avessos


"Consulte sempre um advogado. Você tem direitos. Consulte sempre um psicanalista. Você tem avessos..."

(ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. - São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008. - Página 53)
Marianne
Linguagem

Linguagem, essa mentirosa... Agora é moda falar em carros seminovos, em celulares seminovos. Isso é uma enganação. Ou é novo ou não é. Há coisas que não podem ser "semi": semivirgem, semigrávidas semi-honesto, semibom...

(ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. - São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008. - Página 49)