Marianne
Estive caminhando hoje por algumas ruas durante a noite fria, vendo pessoas encolhidas nos cantos da cidade, como se fossem mortos-vivos, sofrendo a overdose de existir... Eles andam como fantasmas, abandonaram tudo e se enchem de qualquer artifício que os ajudem a perder a consciência de si mesmos e dos outros... Será que viver na ignorância é evitar mais sofrimento? Não, isso não me convence, a ignorância permite que qualquer um faça o que quiser com você e isso é a pior de todas as coisas, notar sem reagir que você é apenas uma marionete esperando para ser enterrada.

A noite é fria nesse mês, mas ela costuma ser mais doce que o dia. Sempre pego um leve resfriado abusando de sua frieza, mas não consigo perder a sensação de sentir a brisa noturna, com aroma de flores á inundar esse quarto cheio de livros empoeirados.

Aproveito desse cenário e penso em todas as coisas que estão tão vivas em minha mente, encontro um sorriso enamorado, uma melodia de Bach, um quadro de quem se foi pendurado na parede, encontro também um calendário com uma data em vermelho no mês de janeiro com uma notícia amarga, encontro um ar engasgado na garganta não querendo sair e um olho que recusa a parar de chorar e vejo uma pessoa vazia em um mundo vazio. E essa pessoa está dentro de mim, está fora de mim e está ao mesmo tempo do outro lado do oceano...

Houve um tempo que a vida era somente primavera e verão, talvez isso foi o que era chamado de “juventude”, mas agora só é outono, um outono secando todo o cenário para que quando o inverno chegar, não haja absolutamente nada no caminho que impeça o vento frio á passear. É assim que me sinto quando penso em você, além do fato de reconhecer que aquilo que te deixa feliz me deixa triste; eu não posso fazer nada com isso e minha mente insiste em ter liberdade e a lembrar de tudo quando não se pode, quando preciso dela para coisas mais importantes que você, ou melhor, mais importante do que fomos.

Eu sinto como se minha alma estivesse sentada na beira de um mar nebuloso, onde nunca é dia, ouço os barulhos das ondas quebrarem em meus pés, e cada navio que vem é uma esperança do retorno de alguém que nunca mais virá.

Fecho os olhos e respiro vendo a sua imagem dormindo enquanto seus pulmões se drogam do ar que solto dos meus pulmões, e eu inalo o ar que você respira, porque é abençoado, é sagrado, pois passou perto do seu coração, aquele coração que eu dormi ouvindo a melodia de duas notas musicais em um compasso de curto tempo.

Estou como um quebra cabeça espalhado sem forma por cima da sua mesa, a minha identidade está tão longe do meu eu e a minha alma caiu debaixo da cadeira... Pensei que suas mãos poderiam me por no lugar e fazer com que eu encontrasse a minha paisagem real, mas suas mãos roubaram metade das minhas peças, levando então a possibilidade de algum dia eu por mim mesma conseguir me formar... Longe de você - sem você.


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